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Crônica

Uma pipa no quintal da minha infância

Por Zildete Rodrigues

07/01/2022 18h18
Por: Da Redação

Por Zildete Rodrigues

 

Não é que, fora de mim, ela estava lá! Sim, depois de longos anos, o regresso: cansada, quebrada e emaranhada. Vinha longinquamente, bravamente fugindo de outros corpos, outras mentes, à minha procura. Ledo engano! A infância nunca esteve avessa a mim. Encontrei-a, soterrada por entulhos adultos. Aquela pipa era a chave da minha infância adormecida em meu coração envelhecido. 

          Não sei se o passado visitou o presente, ou este, quem sabe, adormeceu e acordou pueril. Uma coisa é certa: o hoje é presente no futuro de ontem e passado de amanhã. Logo o tempo é um só, uma fusão. Um sendo o que o outro já foi para tão somente ser: tempo! E a nossa mente, num passo de magia, passeia pelos estágios. Extraordinário veículo, a imaginação!

          Passageira desse transporte, deparei-me com os meus verdes anos. Como? Que felicidade! Uma pipa no quintal da minha infância! Ouço gritos: duas, três, dez...uma infinidade de crianças descalças, cabelos assanhados e olhos assustados a olhar para o céu azul, a admirar aquelas pipas multicoloridas: vermelhas, amarelas, azuis, verdes...O firmamento, naquele momento, era a mais profunda pureza do coração humano. Para aqueles olhos inocentes não existia outra direção. Tudo se concentrava no alto, bem pertinho do Senhor. 

          Tarde linda! Chão pedregulho e na imaginação um desejo: vento forte, linha quebrada e o suru no chão. Suru? Sim. Lembranças longínquas, tempo em que esse brinquedo recebia essa denominação, aqui, nesta região. Onde cairia? Nas roças, nos quintais ou nas estradas de chão batido? Linha....mais linha! Ventania...ventania! 

         Igualmente, bem longe dali, outros pequeninos fitavam o céu, todavia, como ativos da brincadeira. Os carretéis deslizavam a linha, e as pipas tremulando, dançando ao xote do vento seguiam as trilhas e equilibravam lá no alto, acima dos pássaros, que ora eram confundidos. Caroço! Caroço! Gritavam como se estivessem diante de uma surpresa. Que nada! Tudo aquilo era cadenciado e saboreado ao gosto do desnudar do carretel. 

          Instantaneamente, uma pipa bailou em um descompasso diferente. A música era lenta, talvez uma valsa, inebriando e levando a meninada a dançarolar no mais belo salão da existência: a inocência! O ímpeto foi sincrônico. Dois espaços diferentes, separados geograficamente. Não obstante, a mesma emoção.

           Emudeceram! Pausa para o sonho!

          Repentinamente, no silêncio de cada criança, uma explosão uníssona: “quebroouu, quebroouu... vamos mamar, vamos mamar” (Mamar – suave palavra designativa do ato da criança sugar e degustar o leite materno, o alimento da vida). Nesse contexto, pegar, ficar com a linha. Ouço passos acelerados, fortes correrias. Sons infantis invadem a minha mente e imerso profundamente naquele doce universo. Vou velozmente, com bravura, tentando chegar primeiro. A linha enrolada no meu pulso, envolvendo mão, braço e antebraço. Gritos ecoam: ‘’ eu também querooo...eu querooo... vou mamar...é minhaaaa... deixaaaa...coorreeee’’. O empurra-empurra é geral. As trombadas são inevitáveis, como também as zangarias. O suor no corpo misturado à terra, espinhos cravados nos pés e ninguém mais se reconhece.

           Quanto tempo durou? Tempo? Não sei. Só sei que a infância é uma fase em atividade ou adormecida na mente humana, a colorir, sempre, a vida com as mais belas nuances da existência.

           Despertei-me! Ela estava lá. Uma pipa no quintal da minha infância!

 

*Zildete Rodrigues é professora de Língua Portuguesa e Literatura


 

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