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Opinião CRÔNICA

Kátia & Eu

Crônica de Cláucio de Carvalho

14/05/2022 16h11 Atualizada há 2 semanas
Por: Da Redação
Kátia & Eu

 

*Por Cláucio Carvalho 

 

Eu conheci Xico Sá no começo de 1995. Ele era amigo de um amigo meu contemporâneo no curso de jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco. Estávamos no bar Soparia, no baixo Pina, bairro praiano degradado do Recife, situado antes de Boa Viagem. Depois de Boa Viagem é Jaboatão dos Guararapes.

Passava de meia noite, e Lula Portela queria empurrar uma pauta de reportagem para Xico Sá sobre as realizações do prefeito para quem ele prestava assessoria de imprensa. 

Vendo que Xico, repórter experiente da Folha de São Paulo, não ia comprar o peixe que o meu amigo tentava vender, eu comentei sobre a oeirense Kátia Tapety, primeira travesti eleita vereadora no Brasil.

Xico se interessou pelo que eu contava, mas estava desconfiado, não acreditando muito no que ouvia.

Dei-lhe pistas, nomes e telefones de pessoas com quem ele poderia confirmar a história. Xico Sá ligou primeiro para minha mãe, em Oeiras, que atestou a existência de Kátia, nos termos em que eu narrara para ele, mostrando-se, no entanto, incrédula sobre a importância do fato para receber atenção da Folha de São Paulo.

Depois, Xico entrou em contato com o posto telefônico de Colônia do Piauí, munícipio vizinho e recém emancipado de Oeiras e onde a personagem objeto da curiosidade do jornalista exercia o mandato de vereadora. A telefonista riu e confirmou tudo. Xico voltou a falar com mamãe, dizendo-lhe que estaria em Oeiras dali a duas semanas. Mas não apareceu.

Naquele ano, eu estava morando em Caicó, Rio Grande do Norte, onde trabalhava como Oficial de Justiça do TRT (também cursei direito no Recife), e fui passar o aniversário de 90 anos de minha avó em Oeiras. Meu primo Mauro Sampaio, na época jornalista do jornal Meio Norte, de Teresina, também foi para o aniversário.

Compartilhei a pauta com Mauro, observando-lhe que Xico Sá talvez tivesse desistido do assunto. Mauro vibrou com a história de Kátia, e saímos de Oeiras para Colônia no sábado, dia da festa do aniversário, às nove da manhã. Voltamos umas três da tarde, felizes da vida com a conversa que tivemos com Kátia, o marido Demerval e o avô dele.

Ao entrar em casa, o telefone toca. Xico Sá queria falar comigo. Ele sabia que eu estaria em Oeiras naquela data. Expliquei-lhe que, achando que ele desistira de fazer a reportagem, falara sobre Kátia também para o meu primo Mauro e que inclusive já havíamos feito as entrevistas. Xico não se incomodou e garantiu que iria a Colônia na quinta-feira seguinte para apurar a notícia. 

Não tenho certeza agora, decorrido tanto tempo, mas acho que ele sugeriu que ambas as matérias só fossem publicadas na segunda-feira dali a dez dias.

Passada a festa, volto para Caicó. No domingo seguinte, 26 de março, véspera do dia combinado para a publicação das reportagens, abro a Folha de São Paulo e me deparo com a imagem de Kátia estampada na primeira página do jornal. Corro para um orelhão e ligo para Mauro, enredando-lhe que Xico Sá havia descumprido o trato. Mauro não se abalou. O texto dele também havia saído naquele domingo. Arimatéia Azevedo, então editor do jornal Meio Norte, achou a matéria dele boa demais para ser relegada a uma insossa e improdutiva segunda-feira, e a publicou logo no domingo, disparado o dia de maior circulação de jornais.

Depois disso, Kátia Tapety deu entrevistas em rádios, jornais e TVs, apareceu no Jô Soares, na Hebe Camargo, em tudo quanto era mídia e programa e se encontrou com o mundo.

*Cláucio de Carvalho é Jornalista

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